20 de março de 2026
por Altea Guevara

Carlos Sánchez Leonardo é um flautista e corneta renascentista especializado na interpretação de música até ao século XVII. Formado inicialmente em Madrid, continuou os seus estudos superiores na ESMAE do Porto, onde se licenciou e obteve um mestrado em flauta de bisel, completando a sua formação com um mestrado em musicologia histórica pela Universidade de La Rioja. O seu enfoque artístico combina rigor histórico e sensibilidade interpretativa, explorando o repertório antigo como um material vivo, aberto à reinterpretación e à improvisação, sempre com respeito pelas fontes originais. Desenvolveu a sua carreira entre Portugal e Espanha, com atuações também em Itália, França e Finlândia.
[Altea Guevara e Carlos Sánchez – 25 de outubro de 2025, Madrid]
Como foram os teus início no estudo da flauta de bisel e como surgiu a tua profissionalização no mundo da música antiga?
Na verdade, comecei a estudar música com seis ou sete anos, por imposição familiar. Vivía numa pequena aldeia da serra de Madrid onde não havia grande coisa, mas existia uma escola de música. O professor de formação musical era clarinetista, mas estava a estudar flauta de bisel. Um dia, fui com os meus pais a uma aldeia próxima, convidaram-nos para um concerto que ele dava e percebi que me atraía mais do que o violino, que era o que estava a aprender a tocar.
No final, juntámo-nos três alunos que estivemos lá alguns anos. Através dele, conheci o professor que mais tarde seria o meu professor no conservatório de El Escorial. Comecei assim, completamente afastado, sem saber o que era a música antiga, sem saber nada. Acho que é algo que nos acontece bastante aos flautistas de bisel em concreto: começamos pequenos com o instrumento sem saber o que implica, e a trajetória do instrumento vai-nos levando para um repertório, para um caminho que é o que é. Embora seja verdade que há outros mundos para a flauta, muitas vezes acede-se mais tarde a todo o repertório contemporâneo.
Foi um caminho um pouco inevitável. E não demorou muito. Uma vez que comecei a estudar no conservatório, tinha bastante claro que me interessava este mundo. Não sabia como fazê-lo, mas sabia que ia apostar nisso.
No final do grau médio, houve alguns anos de dúvidas, mas acabei por estudar no Porto, na ESMAE. Com o tempo, percebi que a tua rede de contactos depende muito de onde estudaste, de quem conheceste, de quando estudaste e de quem te moveu. E isso acontece aqui, mas também noutros lugares.
Não sei se conheço muita gente que não seja do âmbito ibérico — espanhol e português — que tenha seguido um caminho semelhante. Muita gente que estudou em Haia trabalha imenso lá ou em qualquer parte do mundo. Acho que vai mais por aí: pelos círculos que crias quando estás a estudar, mais do que por outra coisa.
É por isso que, embora viva em Madrid, a minha relação com Portugal é estreita. Viajo várias vezes por mês a Portugal; no final, levo dez anos a viver lá ou, se não, a deslocar-me com muita frequência. Mas, em geral, faço-o com poucos grupos, embora com muita continuidade.
Por outro lado, em Espanha, como intérprete, pouco a pouco tenho tido mais atividade, embora não seja muito grande, a verdade. A atividade principal continua a ser em Portugal. De facto, nos últimos anos, quando toquei em Espanha, muitas vezes foi com grupos portugueses ou com grupos franceses que tenham uma clara base portuguesa. Digamos que a minha atividade profissional em Espanha é mais pontual.
Em que espaços costumas desenvolver a tua atividade musical?
Trabalhei durante muito tempo a combinar a atividade como intérprete com a docência. Há cerca de três anos, mais ou menos, deixei de dar aulas, não por vontade de ser freelancer, mas mais como consequência de se acumularem muitos projetos e numerosas datas de concertos. Não conseguia fazer um trabalho de qualidade na escola, e o volume de trabalho que tinha como intérprete permitia-me dedicar-me apenas a tocar. Por isso, pedi uma licença na escola onde estava.
Durante alguns anos, a minha única atividade foi basicamente a interpretação. Este trabalho é muito flexível, variável; ora há muito, ora há pouco. Este ano voltei a dar aulas, tentando encontrar um equilíbrio mais orientado para a interpretação. Adoro a docência, mas quero que seja um complemento da minha atividade principal.
Quanto aos espaços onde desenvolvo a minha atividade, quase todo o meu trabalho como docente foi em formação não regulada, ou seja, fora do sistema de conservatórios, em escolas de música. Uma das grandes dificuldades de estudar no estrangeiro é a convalidação dos títulos e toda a parte administrativa e burocrática, pelo que, até este ano, não pude aceder a circuitos de conservatório nem a instituições oficiais nesse sentido. Portanto, toda a docência que lecionei foi em escolas. Não dei muitas aulas particulares nem cursos mais formais; sempre foi em centros.
Quais são os maiores desafios para a sustentabilidade da carreira de um flautista de bisel?
Talvez seja um pouco… deprimente dizer isto como flautista, mas penso que há uma certa sobreprodução de flautistas de bisel e que, artisticamente, não são necessários em tão grande quantidade. Não há tanta música escrita para flauta de bisel nem uma procura suficiente para justificar o número de estudantes que se licenciam todos os anos nos conservatórios. Artisticamente, não se adequa à realidade. Há muitos centros que oferecem este instrumento e que começaram a fazê-lo mesmo antes do que com outros instrumentos antigos. Durante muito tempo, quase qualquer instrumento de sopro que fosse necessário era uma flauta de bisel, ou era substituído por uma.
Acho que tudo isto está muito influenciado pela história da recuperação da música antiga e pelo desenvolvimento que teve desde os anos sessenta e setenta até agora. A flauta de bisel foi um dos primeiros instrumentos de sopro a ganhar visibilidade, quase como a ponta de lança do movimento, em muitos aspetos.
Há tanto repertório para flauta transverso, oboé, corneta do qual existem gravações feitas por flautistas de bisel… No entanto, hoje em dia já contamos com especialistas: músicos instrumentistas muito competentes dedicados a outros instrumentos de sopro antigos. Com isso, todo aquele espaço que a flauta de bisel ocupava reduziu-se, e é natural que o mercado tenha diminuído, porque acho que, nesse sentido, estava um pouco alterado e não era totalmente fiel.
Encontramo-nos assim com gerações mais jovens de músicos — como a minha — que estudámos este instrumento, mas que depois nos damos conta de que o mercado não nos precisa nessa medida. Por isso, é muito comum o perfil do flautista de bisel que quer dedicar-se a tocar, a ser freelancer, e que a interpretação seja a sua atividade principal, mas que descobre que com a flauta de bisel sozinha não vai poder. Tomar esta decisão é sempre complicado, e é uma aposta que convém enfrentar com muita consciência, com a cabeça fria e com clareza. Em qualquer especialidade da música antiga isto acontece, mas no caso concreto da flauta de bisel acho que é especialmente difícil porque não há volume de trabalho suficiente. Não é um instrumento suficientemente procurado — exceto para poucas figuras — para que seja sustentável a longo prazo. No final, neste setor, os perfis mais de nicho vêem-se obrigados a diversificar-se mais do que os perfis mais procurados ou com mais oportunidades.
Eu, em geral, considero-me uma pessoa muito afortunada, porque pude dedicar-me exclusivamente a isto durante alguns anos, mas acho que não é o habitual. Acho que, como flautista de bisel, é uma realidade que não é simples. No mundo da música em geral já é difícil, mas no caso da música antiga complica-se mais: noutros tipos de música acho que sim se permite este tipo de atividade a instrumentistas que podem participar em orquestras, por exemplo, ou a cantores. Sem dúvida, para instrumentos de sopro é sempre difícil, mas a procura de flautistas de bisel não é variada nem responde à quantidade de flautistas que há.
E, na hora de gerir a carreira, para além do desafio fundamental que supõe contar com trabalho suficiente e com tudo o que isso implica, um dos aspetos principais é o económico. Em muitos sistemas fiscais, além disso, a atividade vê-se obstaculizada. No meu caso, como trabalhador independente que cotiza em Espanha, posso dizer que ser trabalhador independente até atingir um determinado limiar de faturação resulta bastante incómodo. Uma vez superado esse nível, tudo funciona mais ou menos bem. No entanto, mover-se nos escalões mais baixos de faturação, num trabalho tão instável, é sempre difícil e angustiante. A isto soma-se a necessidade de gerar volume de trabalho suficiente e de lidar constantemente com a burocracia: adiantar dinheiro para impostos, para viagens ou para muitos outros gastos. Não é sempre assim, mas é uma situação frequente.
A isto, haveria que acrescentar uma dinâmica que resulta muito chocante, que desgasta, que dificulta tudo isto e que está muito instaurada — e não só na música, mas acho que qualquer trabalhador por conta própria estará de acordo —: o ter sempre que perseguir fornecedores ou insistir com alguém para que te paguem, trabalhar sem saber exatamente quando vais ser pago. Esse é um ponto muito concreto que afeta a muitos de nós, já que podes estar a ter uma atividade incrível, a trabalhar imenso e com uma carreira estupenda e de prestígio, e mesmo assim continuares com os mesmos problemas de sempre neste aspeto, simplesmente porque não sabes quando vais receber os honorários e as dietas. É algo muito instaurado e que dificulta muito as coisas. Não digo que, no meu caso, tenha sido algo limitante ou que tenha suposto um ponto de rutura, mas sim uma incomodidade constante e muito grande. Além disso, coloca-te numa posição incómoda, quase desagradável, ao teres que insistir com as pessoas para que remunerem algo que já trabalhaste e que deveria estar resolvido.
Que estratégias existem para superar estas dificuldades?
A opção de estudar um segundo instrumento, provavelmente uma vez terminados os estudos de flauta de bisel, pode ser fundamental, embora, se se tiver visão de futuro, se comece antes a fazer isto. A escolha depende dos interesses e da estratégia de cada um, mas o mais habitual é que sejam outros instrumentos de sopro antigos. Se observarmos os perfis de músicos especializados que tocam oboé, flauta transverso — embora talvez em menor medida —, corneta ou bajón, muitos são, em origem, flautistas de bisel: um instrumento com o qual começaram a formar-se e que depois foram deixando em segundo plano, ou então combinam atualmente com outros instrumentos, que se tornaram no seu caminho principal.
Além disso, no fundo, acho que é preciso saber lidar com toda a incerteza que rodeia a atividade, mais do que com os desafios da atividade em si, porque a atividade em si costuma ser sempre gratificante.
Quais identifica como as maiores virtudes do setor da música antiga em Portugal?
Diria que o primeiro aspeto é que há uma grande vontade de fazer coisas. Noto muito mais essa predisposição para lançar-se e lutar pelos projetos, mesmo que isso implique, às vezes, tomar caminhos alternativos para evitar dificuldades. Gosto desse inconformismo de dizer: vamos levar isto avante, apesar de que, depois, de forma contraditória, também vejo um certo conformismo com o resultado, mesmo havendo havido um entusiasmo forte.
Sim, há contradição aí. Mas acho que não é só na música; é algo que eu vejo também na cultura portuguesa, como espanhol que foi para lá viver. Vejo um pouco essa dinâmica: uma ânsia de fazer coisas, de mudar coisas, e ao mesmo tempo, que depois tudo fica um pouco a meio. Generalizando muito, acho que é um ponto de partida muito bom, mas que se poderia levar tudo um pouco mais além.
Por outro lado, acho que Portugal e os portugueses estão muito conectados internacionalmente. Há uma preocupação ativa por integrar-se e por tentar participar na Europa, e isso nota-se na música, nos projetos, na mobilização e na diáspora. Em comparação, dá-me a sensação de que nós, os espanhóis, não o estamos tanto: tendemos a estar mais centrados em nós mesmos em muitas coisas, ou a dar por assente coisas que os portugueses, em mudança, procuram de forma mais ativa.
Quais são, na sua opinião, os principais desafios futuros para consolidar este circuito artístico e profissional?
Quanto aos desafios, provavelmente a nível global centro-me muito na realidade do trabalhador médio, não nas grandes figuras, que terão os seus problemas e demais, mas que me resultam menos representativas. Para mim, seria ideal conseguir condições de trabalho estáveis e boas para todos, e que sintamos e vejamos viável lutar por elas.
Não sei, comparativamente com outros setores, como pode ser o teatro ou outros trabalhos culturais, nós não nos associamos nada. Ou seja, somos indivíduos autónomos que se encontram de vez em quando em projetos e já está, sem sentido de setor nem de comunidade, sem um afã associativo em relação aos interesses gerais. Tenho a sensação de que, na música antiga, salvo grupos grandes ou muito profissionalizados, é relevante assinalar que há uma nuvem de grupos que se criam e se destroem quase a cada temporada: esses encontros rápidos que se fazem para um projeto ad hoc, onde de repente há uma página no Facebook e uma página no Instagram do grupo, onde num curto espaço de tempo se reflete como acabou por ser abandonado. Pode chegar a ser demasiado volátil.
Esta flexibilidade permite fazer muitas coisas, sim, mas também desampara um pouco, acho.
Talvez o grande desafio seja questionar-se realmente como fazer para que se pudessem estabelecer uns mínimos para os trabalhadores, para os músicos especializados. Porque também muitas vezes — embora por sorte não costume ser o meu caso — todos nos encontramos em situações em que tivemos que suportar coisas que acho que não deveriam ser aceites, mas que não nos resta outra porque nos fazem entender que, se não passarmos por isso, vem o seguinte a levar esta oportunidade. Que se não aceitas certas condições, outro o fará, não é?
E esse medo, pois não sei… é um sentimento que normalizamos como intrínseco ao trabalho, mas que noutros âmbitos está mais regulado e vai-se superando. Eu não sei como resolvê-lo, não tenho uma resposta para isso, mas acho que seria importante evoluir neste sentido. E talvez isso aconteça porque todos, um pouco, tomemos consciência de que somos um coletivo: um coletivo que até deveria incluir aqueles que não se dedicam a 100% do seu tempo à interpretação — muitas vezes porque não é viável em todos os casos, o que talvez reflita que haveria que problematizar se há demasiados profissionais para o mercado que existe, e se não há infraestrutura para criar mercado muito mais rápido —. Seja como for, independentemente da parcialidade e da combinação com outros trabalhos de muita gente, o facto é que somos um coletivo, dedicamo-nos ao mesmo, e a todos nos afetam as condições e a qualidade do emprego.
Por outro lado, parece-me importante falar sobre o ibérico em geral. Esta é uma visão pessoal, mas acho que os intercâmbios culturais em geral são bonitos, enriquecedores e muito positivos. E a este respeito, Portugal e Espanha muitas vezes comportam-se como realidades fechadas, como se estivessem de costas um para o outro, quando provavelmente, politicamente, sempre foi assim. Mas na prática do dia a dia não deveria ser assim.
Não sei, parece-me uma pena que estas duas realidades estejam tão divididas, tão estanques em muitos aspetos. Embora, bem, ultimamente vejo mais gente a colaborar, vejo mais intercâmbio. Não sei se isso é uma realidade ou se é uma câmara de eco que me leva a encontrar mais pessoas em situações semelhantes à minha; o que poderia ser perfeitamente.
Em qualquer caso, tudo o que seja potenciar atividades dos dois lados da fronteira, colaborações ou projetos de recuperação, parece-me que deveria ser muito mais fomentado. Como te dizia antes, os portugueses olham para a Europa, e acho que é um pouco triste que muitas vezes exista esse salto direto por cima dos Pirenéus… Mas é que a própria realidade, a infraestrutura, a organização e as dinâmicas de trabalho não facilitam estas relações, especialmente de Espanha para Portugal. Isso faz com que, embora haja interesse, muitas vezes não se dê essa conexão mais natural e direta entre os dois lados da fronteira; talvez isto seja um obstáculo.
