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¿Investigación-acción participativa y música antigua? Nuevos horizontes

26 de março de 2026

por Altea Guevara

Durante décadas, a investigação-ação participativa (IAP) foi património dos estudos sociais e educativos, especialmente em contextos populares ou comunitários. Hoje, no entanto, começa a surgir com força em territórios onde antes mal se insinuava: a gestão cultural, a etnomusicologia, e até certos espaços artísticos que, até há pouco, eram considerados impermeáveis ao participativo. Esta abertura não só amplia os métodos de investigação, como também replanteia a própria relação entre conhecimento, prática e comunidade.


Na etnomusicologia, a figura do investigador como observador externo tem vindo a erodir-se com o tempo. Já não basta olhar de fora nem descrever a música "dos outros": trata-se de construir conhecimento com eles, partilhando decisões, saberes e modos de fazer. A IAP oferece um quadro fértil para este deslocamento: transforma a investigação num espaço comum, onde o musical não se analisa apenas, mas vive-se como prática partilhada e questionada, até pelos próprios sujeitos que a geram. A partir daí, transformam-se também as formas de documentar, interpretar e difundir as expressões musicais.


A gestão cultural, por sua vez, começou a recolher esse impulso. Face a modelos hierárquicos ou verticais, surgem projetos concebidos em conjunto com as próprias comunidades culturais, que se reconhecem como coautoras dos seus processos. Nesse contexto, a IAP não se limita a aportar uma técnica, mas encarna uma ética de trabalho. A figura do gestor deixa de ser a do planificador que executa de cima para passar a ser a de um mediador que facilita a ação coletiva, assumindo que os resultados emergem do diálogo mais do que do desenho prévio, e fomentando a ponte entre academia e sociedade.


Ainda assim, as convergências entre gestão cultural e etnomusicologia continuam escassas, sobretudo quando se trata de repertórios de música erudita ou antiga. Este campo, historicamente ancorado em instituições académicas e na recuperação patrimonial, tem sido mais terreno da musicologia histórica do que da investigação participativa. Paradoxalmente, é precisamente aí, nesse território onde as práticas de reativação patrimonial têm lugar, que poderia encontrar-se um espaço de enorme potencial para desenvolver novas metodologias e linhas de investigação participativas.


Imaginemos uma investigação sobre música antiga que não se limite a reconstruir obras, mas que articule, a partir de uma posição mais essencial e material, processos colaborativos entre intérpretes, investigadores, gestores e públicos. Uma investigação que pense a interpretação como forma de mediação cultural e criação artística, limitada e sustentada por fenómenos e fatores intersectoriais, explicados através da humanização dos próprios sujeitos criadores, da valorização dos seus contextos, vivências e idiossincrasias. A música antiga deixaria de ser um objeto que se reconstrói, executa, contempla e avalia para se tornar num lugar de encontro entre uma multiplicidade de sensibilidades, memórias, práticas e saberes, todos eles atravessados pela contemporaneidade.


Ainda não existem linhas consolidadas que trabalhem nesta direção, e é precisamente aí que reside o interesse de arrancar com liberdade algo novo, algo bonito. Na minha linha de trabalho, procuro identificar os vínculos e metas partilhadas pelos indivíduos e projetos que coexistem na Península Ibérica em torno destes processos de criação musical e recuperação patrimonial. As suas realidades e vivências explicam as suas ações e tendências, e a capacidade de agência para atuar é influenciada por contextos complexos e mutáveis, embora observáveis e sistémicos.


Talvez esse "algo bonito" seja o processo de desenhar uma forma específica de ver e atuar para esta realidade, para esta atividade, para estas pessoas. Se a investigação-ação participativa demonstrou a sua capacidade de transformar realidades em comunidades rurais, educativas ou populares, por que não imaginar o seu alcance também nos espaços chamados "eruditos"? É possível que as manifestações culturais não populares tenham sido historicamente desumanizadas até certo ponto, analisadas a partir da figura do artista e do conceito de arte menos mundano possível, o que tem afastado sistematicamente uma abordagem mais terrena e pessoal com estas comunidades e a sua atividade.


Talvez o movimento da música antiga, com os seus delicados equilíbrios e a sua diversidade de realidades e sensibilidades, seja um terreno especialmente único para ensaiar novas formas de investigação e gestão participativas, onde se escutem as necessidades da própria comunidade envolvida, se atendam às suas demandas e se lhes faça partícipes do processo. Roçar a autoetnografia, mas mantendo a distância necessária para uma análise objetiva, ao mesmo tempo que se tenta difuminar as barreiras que impõe trabalhar a partir da "alteridade", é um desafio — mas um desafio bonito, e é esse que se coloca a partir de modelos de observatórios culturais cooperativos como o Sonoscopia.

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